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Capítulo 18: XII:XII

  A noite estava silenciosa, como todas as outras noites em Edel-Füllhorn depois do toque de recolher ser estabelecido.

  O céu rachado e brilhante era a antítese dos subúrbios abaixo dele. Quase um insulto à sua divindade era a escória da sociedade que sobrevoava.

  Um rato corria livremente pelos becos sujos, se alimentando de qualquer sobra ou dejeto que encontrasse pela frente.

  As tábuas das casas tortas rangiam com o vento. Janelas estavam fechadas por dentro com trancas improvisadas. Depois do toque de recolher, apenas dois tipos de gente permaneciam nas ruas: os que n?o tinham escolha… e os que tinham inten??es.

  Passos ecoaram na pedra úmida.

  Gunther caminhava com o capuz baixo, a respira??o visível no ar frio. O uniforme n?o estava completo — apenas a túnica escura, a insígnia coberta.

  Ele segurava algo sob o bra?o.

  Um envelope de papel espesso, selado originalmente com cera azul-acinzentada. O selo estava quebrado.

  No fim do beco, uma figura aguardava sob a sombra de uma varanda projetada. Elegante demais para aquele lugar. Casaco longo de corte estrangeiro, botas limpas demais para aquela lama.

  Charbonpierre.

  — Está atrasado. — disse ele, em voz baixa, o sotaque sutil mas inconfundível.

  Gunther ignorou a provoca??o. Seus olhos estavam febris.

  — Eu encontrei isso na mesa de Reblis. No dia do casamento. Ele estava sozinho no escritório de vigília antes da cerim?nia. O papel estava aberto.

  Charbonpierre estendeu a m?o enluvada.

  Gunther hesitou por meio segundo.

  Ent?o entregou.

  O documento n?o era uma simples carta.

  Era um dossiê antigo, composto por três folhas amareladas e um anexo costurado à m?o com linha vermelha.

  No topo, o bras?o real de um século atrás — o antigo emblema anterior à reforma heráldica — parcialmente raspado, como se alguém tivesse tentado apagá-lo.

  O título:

  “Relatório Interno — Projeto Nadir”

  A caligrafia era técnica, precisa, assinada por um nome que muitos reconhecem apenas como o “Padroeiro dos Alquimistas”:

  Dr. Edgarl Aleksandr Samkov — Alquimista Real.

  As páginas descreviam:

  Testes deliberados de contamina??o em vilarejos migradores.

  Desenvolvimento de uma cepa modificada da praga para “controle populacional indireto”.

  Registro de taxa de mortalidade superior a 63%.

  A recomenda??o de isolar comunidades migrantes sob o pretexto de quarentena.

  E, no último parágrafo da segunda folha:

  “Sua Majestade autorizou o protocolo de conten??o e a reestrutura??o demográfica subsequente. A fome resultante será lamentável, porém estratégica para a conten??o dos efeitos hiperurbanísticos decorrentes da queda de Saklas.”

  A assinatura abaixo n?o era de Samkov.

  Era do Rei Wander.

  A terceira folha continha ordens diretas:

  Aumento dos impostos sobre exporta??o.

  Criminaliza??o de caravanas intermunicipais ou internacionais sem permiss?o da Coroa.

  Proibi??o de migradores em cargos públicos ou militares.

  Estimativa final anotada à margem, em tinta diferente:

  “óbitos por fome e doen?a combinadas: 47.000–52.000.”

  No anexo costurado, uma lista de pagamentos secretos direcionados a oficiais regionais para manter o silêncio.

  O selo real aparecia novamente.

  Intacto.

  Gunther observava o rosto de Charbonpierre enquanto ele lia.

  Nenhuma surpresa.

  Nenhuma indigna??o.

  Apenas cálculo.

  — Ent?o era verdade… — murmurou Gunther. — A praga n?o foi uma maldi??o. Foi projeto.

  Charbonpierre dobrou as folhas com cuidado excessivo.

  — A história é escrita pelos que sobrevivem. — respondeu.

  — Reblis sabia. — continuou Gunther, a voz tremendo. — Ele sabia e estava investigando. Se isso vier à tona…

  — Luther cai. — completou Charbonpierre.

  O silêncio voltou ao beco, o rato parou por um instante, bigodes tremendo.

  — Eu fiz a coisa certa. — disse Gunther, quase para si mesmo. — Eles precisam saber.

  Charbonpierre levantou os olhos lentamente.

  — Sim.

  Ele levou a m?o para dentro do casaco.

  Gunther franziu o cenho.

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  O objeto que surgiu n?o era espada. Nem adaga.

  Era pequeno. Metálico. Compacto.

  Uma pistola de pederneira.

  Madeira escura entalhada, cano curto de a?o brunido, mecanismo estrangeiro de faísca e pedra.

  Tecnologia da Pulmérica Oriental.

  Quase ninguém na Ocidental reconheceria aquilo antes de ouvir o som.

  Gunther deu um passo para trás.

  — O que é iss—

  O disparo n?o foi alto como um canh?o.

  Foi seco.

  Violento.

  Um estalo de trov?o engasgado no beco estreito.

  A faísca iluminou o rosto de Charbonpierre por um instante.

  O projétil atravessou o peito de Gunther antes que ele entendesse o que estava acontecendo.

  O impacto o jogou contra a parede.

  Ele olhou para baixo.

  Sangue escuro se espalhava pela túnica onde o símbolo de Luther costumava estar.

  Os joelhos falharam.

  — Eu… eu estava ajudando… Por quê?— sussurrou, o ar escapando junto com o sangue.

  Charbonpierre guardou a arma com a mesma calma com que dobrara o documento.

  — Exatamente por isso. — respondeu.

  Gunther caiu de lado, os olhos ainda abertos para o céu rachado acima.

  Ele nunca escolhera ser traidor.

  Apenas seguiu o ídolo errado.

  Seu sangue escorreu pelo desnível da pedra e formou uma pequena po?a próxima a um amontoado de lixo.

  O rato voltou.

  N?o hesitou.

  O vermelho refletia as rachaduras como se o céu tivesse decidido cair ali também.

  E, naquela noite, Edel-Füllhorn ganhou mais um mártir que jamais teria estátua.

  Apenas silêncio.

  ...

  Wanderson acordou sem estresse. Desperto pelos raios solares filtrados pelas persianas caras, sem se preocupar com horário ou dinheiro. Dormiu sob um travesseiro recheado com penas de cisnes, foi coberto com len?óis de seda fina, e acompanhado por uma bela esposa.

  Muitos matariam por uma noite como essa. Ainda assim, ele estava cansado.

  Ele sonhou com esse dia por um bom tempo, o dia em que finalmente teria uma família. Finalmente deixaria a vitrine de vaidade e prazeres terrenos, daria espa?o à real felicidade.

  Mas lá estava ele, encarando o teto como todas as outras manh?s.

  O Duque suspirou, levantou-se e foi lavar o rosto.

  Vestiu uma roupa decente, passou o perfume de sempre.

  Teve o desjejum entregue no quarto, comeu com a esposa.

  Caminhou no jardim, surpreendeu Rebbeka com um buquê.

  Assinou documentos, aprovou a reforma da Catedral.

  Escreveu uma carta ao irm?o, contou do casamento, contou do desastre.

  Ele dobrou a carta com cuidado, selou-a com cera vermelha e pressionou o sinete do bras?o.

  N?o contou da decep??o.

  Talvez porque ainda n?o soubesse nomeá-la. Talvez porque admitir o vazio seria dar-lhe forma.

  Um toque seco ecoou na porta.

  Wanderson ergueu os olhos.

  Rebbeka também, mas ela n?o perguntou quem era.

  Ele abriu. Do lado de fora, quatro homens trajando o negro cerimonial da Guarda Alta permaneciam imóveis. Elmos sob o bra?o. Espadas à cintura. O emblema da Coroa bordado no peito.

  Entre eles, um oficial que Wanderson reconheceu.

  Tenente Becker-Braun

  O homem n?o fez reverência.

  — Duque Wanderson. — disse apenas, sua mandíbula rígida. — O Conselho de Pares foi convocado. Sua presen?a é exigida imediatamente.

  Wanderson piscou.

  — O Conselho? Por qual motivo?

  Dennisorfeu n?o respondeu de imediato. Seus olhos estavam pesados, ele n?o havia dormido essa noite.

  — Alta acusa??o.

  O silêncio que se seguiu n?o foi explosivo. Foi o tipo de silêncio que desce como neblina.

  Rebbeka deu um passo à frente.

  — Isso é algum equívoco.

  Sorfeu manteve os olhos fixos no Duque.

  — A investiga??o preliminar foi concluída esta manh?.

  Wanderson sentiu algo deslocar-se dentro do peito.

  “Investiga??o?” Repetiu em sua mente.

  Ele olhou para a esposa, e ela sustentava a express?o perfeita.

  Controlada e serena. Como sempre.

  — Muito bem. — disse o Duque, ajeitando as mangas. — Ent?o n?o devemos fazê-los esperar.

  N?o protestou, apenas caminhou.

  ...

  O sal?o do Conselho de Pares n?o era o mesmo usado para celebra??es.

  Era menor. Mais escuro.

  As janelas altas deixavam entrar luz suficiente apenas para delinear as figuras sentadas em semicírculo.

  Eram cinco nobres. Cada um Conde de um subdistrito, com Margrave ao centro.

  Wanderson foi conduzido ao centro. N?o tinha algemas, mas estava cercado.

  — Duque Wanderson de Edel-Füllhorn. — iniciou o Margrave, a voz baixa e medida. — Sois acusado de alta trai??o à Coroa e conspira??o com for?as rebeldes.

  O murmúrio foi contido.

  Wanderson soltou uma breve exala??o pelo nariz.

  — Baseado em quê?

  Um oficial avan?ou com uma bandeja.

  Primeiro: um broche republicano.

  Depois: documentos apreendidos em seus aposentos;

  Selos;

  Anota??es;

  Correspondências.

  Ele franziu o cenho.

  — Isso n?o—

  — E por fim. — interrompeu o Margrave.

  Outro homem trouxe uma caixa de madeira escura. Dentro, envolta em pano grosso:

  A pistola.

  — A arma utilizada no assassinato de Gunther. — disse o Margrave. — Encontrada escondida no compartimento falso de sua escrivaninha privada.

  O mundo n?o girou.

  N?o houve vertigem.

  Gunther está morto.

  Wanderson olhou para Dennisorfeu no canto da sala.

  Houve um leve tremor nos olhos do tenente, no entanto, ele n?o desviou o olhar.

  — Eu nunca vi essa arma antes. — disse o Duque.

  — Vossa Gra?a estava sob investiga??o há semanas. — continuou o Margrave. — Gunther foi testemunha-chave. Sua morte apenas refor?a a gravidade da acusa??o.

  Wanderson riu baixo, sem humor.

  — Refor?a para quem já decidiu.

  Um dos nobres à direita bateu o anel na mesa.

  — Cuidado com suas palavras.

  O Duque ergueu o queixo.

  — Eu sou par deste Conselho. Tenho direito a julgamento justo.

  O Margrave inclinou levemente a cabe?a.

  — E o terá.

  Os votos foram colhidos.

  N?o houve surpresa, nem hesita??o.

  Culpado por maioria.

  O silêncio que seguiu foi mais pesado que qualquer senten?a.

  Wanderson fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, havia algo diferente ali.

  N?o desespero, mas incredulidade ferida.

  — Ent?o concedam-me o direito antigo. — disse. — Julgamento por combate.

  Alguns dos nobres se remexeram.

  — Se sou traidor, que o céu decida através da lamina. Escolham seu campe?o. Eu lutarei. — concluiu.

  Por um momento, o sal?o pareceu voltar um século no tempo.

  O Margrave observou-o longamente. Ent?o falou.

  — N?o.

  — O mundo mudou, Duque. — continuou ele. — N?o somos governados por supersti??es de a?o, mas por ordem. A estabilidade de Luther n?o será entregue a um espetáculo.

  Wanderson sentiu o nó apertar.

  — Ent?o isto é política.

  — Isto é necessidade.

  O Margrave levantou-se.

  — Por decis?o do Conselho de Pares, sois destituído de título e propriedades. Permanecereis sob custódia até determina??o final de vossa senten?a e confirma??o da Coroa.

  N?o era execu??o imediata.

  Ele era um boi esperando o abate.

  — Que a história registre — acrescentou o Margrave — que esta decis?o n?o foi tomada com prazer.

  Wanderson encarou cada um deles. Depois seus olhos encontraram Rebbeka.

  Ela n?o chorava.

  N?o gritava.

  Apenas assistia.

  Como alguém observando uma pe?a cujo final já conhecia.

  Foi nesse instante que algo dentro dele come?ou a rachar.

  Os guardas aproximaram-se. Ele n?o resistiu.

  Enquanto era conduzido para fora do sal?o, passou pela bandeja onde a pistola repousava.

  E, pela primeira vez em muito tempo, ele conseguiu o que desejava.

  Deixou de ser apenas espectador.

  ...

  A Cidadela estava mais silenciosa do que o habitual.

  N?o o silêncio disciplinado de sempre. Mas o tipo de quietude que nasce depois de algo irreversível.

  Micah subiu os degraus da ala médica com passos contidos. O cheiro de álcool, ervas esmagadas e ferro oxidado impregnava o ar.

  As enfermeiras exaustas iam e viam. Juntando os peda?os quebrados do desastre de ontem, privando à si mesmas de quebrarem.

  Ele n?o tinha ido ali desde a noite do casamento.

  Desde o sangue.

  Desde a lamina.

  Empurrou a porta do leito particular. Reblis jazia sobre a cama central, o torso enfaixado, a respira??o medida por um leve levantar e cair do peito. A luz do luar atravessava a janela alta e desenhava uma linha pálida sobre o rosto dele.

  Pálido demais, vivo por pouco.

  Lysandre estava sentada ao lado, os dedos entrela?ados sobre o colo, sua jaqueta pendurada sobre a cabeceira. A postura ereta, como sempre — mas os ombros carregavam algo invisível.

  Asáimon permanecia de pé próximo à janela, bra?os cruzados, olhar fixo na noite. Ele foi o primeiro a perceber Micah.

  — Veio vê-lo? — perguntou, sem virar completamente o rosto.

  Micah assentiu e aproximou-se da cama. Observou o Capit?o em silêncio por alguns segundos.

  Reblis parecia menor ali.

  — Ele acordou? — Micah perguntou.

  — N?o. — respondeu Lysandre, baixa. — Os médicos dizem que é melhor assim. O corpo precisa decidir quando voltar.

  Micah respirou fundo.

  — E Sorfeu? — perguntou depois. — N?o o vi desde ontem.

  Lysandre ergueu os olhos, mas foi Asáimon quem respondeu.

  — Ele n?o virá.

  Micah franziu o cenho.

  — Por quê?

  Asáimon finalmente se virou, havia algo diferente na express?o dele. N?o era raiva, nem tristeza.

  — Gunther está morto.

  O silêncio foi imediato.

  Micah piscou.

  — O quê?

  — Ele foi encontrado esta madrugada. — continuou Asáimon. — Um disparo no peito. Arma estrangeira. N?o teve chance de lutar, ele foi executado.

  Lysandre fechou os olhos por um breve segundo.

  Micah sentiu o ar ficar mais fino.

  — E o Sorfeu…?

  — Está envolvido na investiga??o. — respondeu Asáimon. — E no que veio depois.

  Micah olhou de um para o outro.

  — Depois?

  Asáimon sustentou o olhar.

  — O Duque foi preso esta manh?.

  O impacto foi diferente do esperado.

  N?o choque, n?o alegria.

  Algo mais complexo.

  Micah desviou os olhos para Reblis inconsciente.

  — Ele sabia? — murmurou.

  Lysandre assentiu lentamente.

  — Eu entreguei as provas que encontramos ao Margrave. Foi o Capit?o que ordenou a investiga??o.

  A voz dela n?o tremia, mas havia algo ali.

  — Fiz exatamente o que ele pediu. — continuou, apertando levemente os próprios dedos.

  — Mesmo assim… eu n?o estava lá.

  Micah a encarou.

  — Lá?

  — Quando ele caiu. — disse ela. — Eu estava organizando papéis. N?o estava ao lado dele.

  O silêncio que seguiu n?o era acusatório.

  Era humano.

  Asáimon quebrou-o.

  — Culpa é um luxo para depois. Ainda n?o terminamos.

  Micah voltou a olhar para Reblis.

  O homem que enfrentara um monstro por convic??o.

  O homem que talvez tivesse provocado a queda de um Duque.

  O homem que agora respirava como alguém que ainda n?o decidiu voltar.

  — E agora? — perguntou Micah, quase para si mesmo.

  Asáimon olhou novamente pela janela.

  Lá fora, o anél parecia inclinado demais no céu. As rachaduras, muito frágeis.

  — Agora — respondeu ele — só podemos esperar pela misericórdia dos Arcontes.

  Micah permaneceu ali por mais alguns segundos. Depois puxou uma cadeira.

  Sentou-se.

  E esperou.

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